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Religião e política?

  Maria canta no Magnificat, “Deus vem tirar do trono os poderosos”. O serviço que a religião presta ao mundo é o da instauração do Reino de Deus. Esse é seu “projeto político”. Deus que quer “salvar todos os homens e o homem todo” se preocupa com a forma como vivemos nesse mundo. Daí a importância da política. Ela é a arte do bem comum, o serviço aos que vivem no mesmo lugar. A religião deve influenciar a política para que ela atenda a esse seu propósito de servir ao bem comum, garantir às condições básicas para que vivamos com dignidade. Foi o Divino Mestre quem disse: “ Quero vida e vida em abundância”. Em muitos lugares, Deus voltou a ocupar a cena do discurso político. Mas, que Deus? Na verdade, um deus oportunista, que agita as massas e grita de cima dos muros. Um deus que se alegra com o enriquecimento e serve para justificar a pobreza e a miséria. Um deus que fecha os olhos a violência, maus-tratos e extermínios, pois isso é um “mal necessário”. Um deus que se ensurde...

O amor segundo Gibran Kalil

  Então, disse Almitra, “nos fale do Amor”. E ele ergueu a cabeça e observou a multidão, e uma quietude recaiu sobre todos. Com uma voz forte, ele lhes disse: “Quando o amor lhes acenar, sigam-no, Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas, Embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir. E quando ele lhes falar, acreditem no que diz, Embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim. Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica. E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda. E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol, Também desce até suas raízes e as sacode em seu apego a terra. Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si. Ele os debulha para expor-lhes a nudez. Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas. Ele os mói até a extrema brancura. Ele os amassa até que se tornem maleáveis....

Descobrir o belo!

      A vida segue uma ordem natural: nascer, crescer e morrer. A sociedade sempre quis se distanciar da morte, por isso mesmo, tem descoberto meios para prolongar a vida. Paradoxalmente, esse mesmo desejo não se aplica ao nascituro querendo negar ao mesmo o direito de existir. Isso é espantoso, pois o que se espera é que essa mesma sociedade guarde, cuide e ampare essa vida que quer vir a ser.          Invertemos essa ordem natural e passamos a considerar "indesejável" o ser que milagrosamente passou a existir. Inúmeros motivos aparentemente justificáveis são usados para "humanizar" o que não se pode. E o fato é simples: a vida começa na gestação e sendo assim deve ser salvaguardada de qualquer ameaça aparente. Por outro lado, insisto que o problema é muito mais grave pois envolve "o campo das ideias".           Todo o problema começa na decisão equivocada que nasceu com a revolução sexual. Com exceção de alguns caso...

A PIPOCA - Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento. As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi prec...

A FESTA DE BABETTE - Rubem Alves

 Um dos meus prazeres é passear pela feira. Vou para comprar. Olhos compradores são olhos caçadores: vão em busca de caça, coisas específicas para o almoço e a janta. Procuram. O que deve ser comprado está na listinha. Olhos caçadores não param sobre o que não está escrito nela. Mas não vou só para comprar. Alterno o olhar caçador com o olhar vagabundo. O olhar vagabundo não procura nada. Ele vai passeando sobre as coisas. O olhar vagabundo tem prazer nas coisas que não vão ser compradas e não vão ser comidas. O olhar caçador está a serviço da boca. Olham para a boca comer. Mas o olhar vagabundo, é ele que come. A gente fala: comer com os olhos. é verdade. Os olhos vagabundos são aqueles que comem o que veem. E sentem prazer.  A Adélia diz que Deus a castiga de vez em quando, tirando-lhe a poesia. Ela explica dizendo que fica sem poesia quando seus olhos, olhando para uma pedra, veem uma pedra. Na feira é possível ir com olhos poéticos e com olhos não poéticos. Os olhos não po...

Proselitismo ou proselitismo?

Ao longo da história vemos um movimento de resistência ao poder opressor através da religião. Na época do governo selêucida, Antioco Epifanes quis impor a força suas crenças ao povo judeu. Profanou o lugar sagrado dos judeus impondo a imagem de Zeus no templo. Os irmãos Macabeus se levantaram recusando-se a abandonar suas tradições. Os judeus, em outra ocasião tiveram que “fingir” sua conversão para escapar da morte imposta por cristãos que os perseguia. Esses foram chamados de cristãos novos. Os africanos que chegaram aqui como escravos passaram pela mesma coisa. Se “convertiam” a religião cristã, sendo obrigados a abandonar suas crenças. Resistiram mantendo vivas suas tradições no lugar sombrio de seus barracos, onde tanta dor se misturava a esperança de um dia serem livres. No silêncio de sua prece, no lugar que ninguém podia aprisionar, eles mantinham vivos suas memórias recusando a deixar para trás sua experiência religiosa. Os cristãos passaram pela mesma coisa no começo quan...

O que Anne Frank e José Datino tem em comum?

Anne Frank nasceu a 12 de junho de 1929 na cidade alemã de Frankfurt. Diante das incertezas que dominam a Europa nesse período, seus pais decidem ir para a Holanda. Ali, Otto, o pai de Anne, trabalhava com seu próprio negócio.   A 2ª Guerra Mundial começa. A Alemanha invade a Polônia em 1939. Em 1940, é a vez da Holanda. Aos poucos, a vida dos judeus que viviam na Holanda torna-se difícil. Os Judeus eram impedidos de frequentar certos estabelecimentos. Os nazistas confiscavam bens e as crianças judias já não podiam frequentar as mesmas escolas das demais crianças. A política era de separação. A Estrela de Davi desenhada em um pedaço de pano amarelo era o sinal dessa política que escondia seu intento mais sombrio: exterminar os judeus. Anne, sua irmã e sua mãe, não conseguem sobreviver aos horrores do nazismo. Apenas Otto Frank, o pai de Anne, sobrevive. Foi ele, o responsável por publicar o Diário de Anne Frank. Dentro da capa do Diário, Anne escreveu, “Seja gentil e tenha cora...