Proselitismo ou proselitismo?

Ao longo da história vemos um movimento de resistência ao poder opressor através da religião. Na época do governo selêucida, Antioco Epifanes quis impor a força suas crenças ao povo judeu. Profanou o lugar sagrado dos judeus impondo a imagem de Zeus no templo. Os irmãos Macabeus se levantaram recusando-se a abandonar suas tradições. Os judeus, em outra ocasião tiveram que “fingir” sua conversão para escapar da morte imposta por cristãos que os perseguia. Esses foram chamados de cristãos novos.

Os africanos que chegaram aqui como escravos passaram pela mesma coisa. Se “convertiam” a religião cristã, sendo obrigados a abandonar suas crenças. Resistiram mantendo vivas suas tradições no lugar sombrio de seus barracos, onde tanta dor se misturava a esperança de um dia serem livres. No silêncio de sua prece, no lugar que ninguém podia aprisionar, eles mantinham vivos suas memórias recusando a deixar para trás sua experiência religiosa.

Os cristãos passaram pela mesma coisa no começo quando eram vistos como uma ameaça aos interesses de judeus e gentios. Perseguições, humilhações, mortes acompanharam os cristãos nos seus primeiros séculos. Eles resistiram pagando um preço por suas crenças. Os mártires são um testemunho eloquente da fé que resiste apesar de todos os sofrimentos. Alguns fugiam, se escondiam, mas não deixavam o que os mantinha vivo, que era a fé no Cristo morto e ressuscitado.

Ao longo da história vimos a luta entre perseguidos e perseguidores, entre opressores e oprimidos. Infelizmente isso aconteceu dentro das tradições religiosas que conhecemos. Mas, por que isso ocorria? Em alguns casos, a afirmação da minha fé depende da negação da fé do outro. A sobrevivência das minhas crenças parece depender da eliminação das crenças alheias. Quando falo de negação me refiro a um processo de não aceitação da forma como o outro vive, oriundo de um pre-conceito que sempre vem acompanhado de exclusão. Isso se dá de diversas formas. Quando os apóstolos começaram a anunciar que Jesus havia ressuscitado, eles ainda pertenciam ao judaísmo. O que aconteceu de imediato foi uma argumentação desfavorável aquilo que estava sendo pregado. Depois, vieram as ameaças, difamações, calúnias, provocações e enfim, os assassinatos. Cria-se um ambiente de desconfiança, medo, suspeita, desprezo e ódio. Daí, cria-se o cenário ideal para a eliminação.

Parece que só eu devo existir e se o outro quiser existir, que ele seja como eu. Isso está presente em todas as formas de relações sociais, inclusive na religião.

Existe dentro da fenomenologia da religião aquilo que chamamos de proselitismo. É um conceito que implica a adesão de novos adeptos a minha fé. Isso é comum a todas as tradições religiosas. Porém, algumas vezes é interpretada em sua conotação negativa associada a manobra, tática, pra conquistar fiéis, seja por convencimento ou através de propaganda religiosa à custa de condenações das outras religiões e de artimanhas para atrair adeptos. Nesse sentido se rebaixa, ridiculariza, combatendo as outras religiões, colocando-se numa situação de superioridade e vantagem.

A Corte Européia dos Direitos Humanos vai noutra direção declarando que o proselitismo é um dos componentes da liberdade de religião garantido pelo artigo 9º da CEDH:

Enquanto a liberdade de religião implica também liberdade de manifestar a sua religião. Dar testemunho com as palavras e gestos é estritamente ligado à existência da liberdade de religião. Segundo o artigo 9, a liberdade de manifestar sua religião (...) inclui em princípio o direito de tentar con­vencer seu próprio vizinho, por exemplo, por meio do ensino, faltando esse direito ademais, a liberdade de mudar de religião ou crença, consagrada no artigo 9, é provável de permanecer letra morta.

            O papa Francisco fala constantemente sobre o imperativo da evangelização e difusão da fé. Durante a sua recente viagem ao Sri Lanka, por exemplo, ele convocou os católicos asiáticos a não esquecerem o “zelo missionário” que possuem. Por outro lado, Francisco raramente perde uma oportunidade de condenar aquilo que chama de “proselitismo”. Ele chamou esta prática de uma “solene besteira” (ou disparate) numa entrevista dada em 2013, e durante uma celebração ecumênica das Vésperas na Basílica de São Paulo Fora dos Muros ele pediu a todas as igrejas cristãs que rejeitassem o “proselitismo e a competição em todas as suas formas”.

Podemos facilmente confundir o proselitismo deixando de lado o essencial: a força de atração que aquela experiencia religiosa deve causar em mim. Isso depois se transforma em seguimento, compromisso, doação de vida. A imposição a uma fé nunca deveria acompanhar a experiência religiosa, isso porque um dos atributos de Deus é a liberdade. E é assim que ele nos cria, livres.

 

 


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